sábado, 3 de março de 2012

Liberdade e satisfação: um paradoxo do mundo contemporâneo

É mister observar que ao longo da história o homem sempre lutou pelos seus direitos e, de forma complementar, tais direitos sempre visaram, pelo menos em princípio, o bem-estar social e a satisfação pessoal. Inegavelmente, a liberdade sempre foi uma dessas garantias almejadas e, em um bom nível de definição democrática, está muito bem alicerçada no cotidiano de grande parte da sociedade. Entretanto, a satisfação que deveria ser habitual e recorrente é, paradoxalmente, sufocada pela própria liberdade conferida pela contemporaneidade e seus excessos de possibilidades de escolhas.
Uma característica patente do mundo moderno é a que se resulta dos novos métodos de produção e desenvolvimento de bens e produtos. Muito recentemente, um indivíduo que optasse por adquirir um bem material qualquer possivelmente não teria mais do que uma ou duas opções de modelo, cor e quaisquer outras caracterísicas funcionais. Hoje, essas são dezenas, entre marcas e tecnologias. Se em tempos recentes o objeto escolhido não fornecia toda a funcionalidade esperada, obter-se-ia dele o que houvesse de melhor mesmo naquelas condições, mas não haveria sentimento de culpa quanto às expectativas não correspondidas. Não havia possibilidades de escolhas.
Hoje a questão é aparentemente satisfatória. Aparentemente porque todos têm uma complexa rede de possibilidades e são livres para escolher. Não existe um único tipo de telefone,um único tipo de calça com algum padrão simples de costura e tamanho, um único tipo de geladeira ou televisão que simplesmente realize suas funções originais, tampouco um ou outro caminho profissional a percorrer e que determine toda uma vida. Praticamente nada mais é único e tudo apresenta um concorrente. Logo, não existe justificativa: uma má aquisição ou escolha não passa de um mau uso da liberdade de selecionar o que deveria ser melhor, diferentemente do passado.
Consequentemente, talvez se possa afirmar que dificilmente alguém alcance a satisfação completa. A liberdade de escolher, apontar um caminho e seguí-lo ou adquirir o que quer que seja, possivelmente virá acompanhado por alguma mínima frustração a respeito daquilo que foi renegado, deixado de lado por uma questão de poder de decisão da própria liberdade - que sempre foi duramente perseguida e hoje é tão bem guardada. São apostas que sempre vêm tentadas pelo "e se" e, por conseguinte, o paradoxo acaba por se tornar, eventualmente, inevitável.

Nenhum comentário:

Postar um comentário